The Glassco Translation Residency: Day #7

Há uma semana estou aqui. Sete dias convivendo com pessoas que não conhecia. Em uma pequena cidade que jamais visitei. Em um quarto que nunca dormi.

Cheguei aqui para traduzir um texto do francês para o português e irei sair com uma bagagem imensa que jamais imaginei. Estou compartilhando o mesmo teto de uma casa com uma história, apreciando a tranquilidade de baleias, belugas e focas que não estão nem aí para nossa presença, entendendo o que é de verdade o Canadá, o Québec, o francófono, o anglófono e tantas outras nuâncias sob diferentes pontos de vista que nem eu mesma sei ao certo o que pensar sem uma grande reflexão antes de falar.

E sim, nós ficamos horas em silêncio trabalhando, ao mesmo tempo em que compartilhamos conhecimento e taças de vinho em nosso 5 à 7 e falamos sobre os assuntos mais diversos e loucos durante nosso jantar. Sim, nós passeamos juntos no início da noite para garantir o ócio-nosso-de-cada-dia e voltamos para casa com a sensação de que realmente contribuímos, através do nosso trabalho, para um futuro melhor. Nem sempre é tão óbvio assim… mas na maior parte das vezes é uma consciência real.

Sim, faltam três dias para partir e tenho certeza de que vou sentir saudades dessa casa. Da escada que range, do cuco, do cheiro de terra molhada, dos amigos que fiz por aqui. Em uma conversa, Maryse disse que vou voltar. Que esta seja uma bela profecia. Afinal, como disse a senhora da lojinha de chocolates: “coisas mágicas acontecem em Tadoussac”.

The Glassco Translation Residency: Day #4

Florence mora em Montreal, mas passa o verão em Tadoussac. Em sua casa, de frente para o Rio St. Laurent, ela separou um pequeno cômodo para seus chocolates. Uma porta de entrada com uma baleia branca diz “ouvert”. Você desce três degraus e sente o cheiro do cacau. Ela explica o que é fabricação própria e o que são produtos adquiridos por conta dos turistas. Compro uma barra de chocolate amargo e um pacote de chocolates sortidos. Conversamos. O tempo aqui passa mais devagar. Ela me pergunta se aceito um porto. Eu que não gosto de porto, aceito. E ela volta com o licor em um copinho de chocolate feito por ela mesma. Nos despedimos e volto para a residência de tradução. O tempo aqui passa devagar. Felizmente.

Glassco Translation Residence: Day #2

Dia 2.

Acordei em Tadoussac.

Não era um sonho.. apesar de ter tido muitos ao longo da noite.

No caminho entre a sala e a cozinha, me perguntam o que achei da cama.

Tive vontade de utilizar adjetivos em português para dizer como estava feliz, mas não queria parecer uma criança.

Eu me sentia uma criança.

Quando você acorda, por mais poliglota que acredite ser, os adjetivos em outros idiomas ainda dormem em algum lugar da sua cabeça.

À minha frente, uma praia de rio.

Aqui, a palavra “praia” ganha novos sentidos.

E tudo bem.

Fui caminhar na areia.

Molhei os pés.

Percebi que a cada 8 segundos, os ossos começavam a doer.

Precisava tirar os pés da água.

E depois voltar.

Vi focas.

Voltei para o que chamo de “lar”.

Limão com água quente.

Um café forte.

Pão com manteiga. Nem esquentei.

Escolhi a melhor vista da “praia”.

Uma cadeira de balanço, duas almofadas sobre as pernas e meu laptop.

Hora de começar a tradução…

…e de olhar vez ou outra pela janela.

Parece surrealismo, mas, aqui, uma baleia pode cruzar seu caminho enquanto você digita.

Em movimento…

Nos sentamos dois a dois no trem, frente a frente. Rebeca e Maryse de um lado. Eu e Michael do outro. Depois de breves apresentações, o primeiro assunto foram os livros que cada um trazia para a “residência”. Feliz em estar em companhia do meu kindle. O trem começou a se movimentar. Montreal foi ficando distante pela janela. Até aqui, tudo me parecia um pouco surreal. Ficção, textos de teatro, conselheiros dramatúrgicos, resiliência… E lá estava eu, a caminho de uma residência de tradução com escritores do Québec. Engraçado como criamos imagens de nós mesmos que nem sempre “se encaixam” onde desejamos ou imaginamos. Difícil para mim me ver como eles, apesar de, no fundo, sermos tão iguais. Escritores. Afinal, qual a real diferença entre nós?