A Psicologia da Imigração é uma subdisciplina da psicologia que estuda os processos psicológicos e comportamentais relacionados à imigração e ao deslocamento de pessoas de um país para outro. Essa área de estudo abrange uma variedade de tópicos, incluindo a adaptação cultural, a identidade, a saúde mental, o estresse, a resiliência, e as experiências de discriminação e marginalização que os imigrantes podem enfrentar.

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O estudo sobre imigrantes e imigração é enraizado em muitas disciplinas: antropologia, demografia, economia, ciência social, sociologia e psicologia. Esta última englobando estudos de psicologia comportamental, psicologia analítica e psicologia social.

Ao longo dos últimos 30 anos, diversos psicólogos e outros estudiosos, focaram em estudar o fenômeno da imigração, sobretudo observando as atitudes dos imigrantes dentro do processo, seus comportamentos (continuidades e mudanças) e suas identidades culturais internas.

Um dos pioneiros no estudo da psicologia da imigração é John. Widdup Berry.

Berry é um psicólogo conhecido por seu trabalho na adaptação de imigrantes e povos indígenas após contato intercultural. Berry nasceu em Montreal em 1939, cidade que me recebeu em minha primeira imigração e na qual morei por 8 anos. Mas eu vou deixar para contar minha história em outro video.

Os estudos de Berry são baseados em duas raízes fundamentais que os imigrantes enfrentam em seu processo de adaptação em um novo país. A aculturação e a relação entre grupos.

Aculturação

Enquanto a aculturação é um estudo baseado sobretudo na antropologia, a relação entre grupos, é um estudo realizado principalmente pela sociologia e pela psicologia social.

É na interseção destas duas raízes que se cria um espaço intercultural onde os membros de ambos os grupos desempenham suas barreiras culturais e relações sociais.

A aculturação é um processo que envolve dois ou mais grupos, trazendo consequência para ambos. Vale ressaltar, por outro lado, que as experiências de contato têm um impacto muito maior no grupo não dominante e seus membros, ou seja, o imigrante.

É importante a gente entender que por mais que nós como imigrantes sentimos na pele as consequências positivas e negativas deste movimento, as pessoas que “nos recebem” também sentem. Só que como grande parte dos estudos que existem focam no imigrante, é difícil encontrar estudos sérios sob o efeito das políticas de imigração nas sociedades que nos recebem.

Em seus estudos, Berry identificou também 4 diferentes realidades de comportamento ligadas ao processo de imigração: a assimilação, a separação, a integração e a marginalização.

Claro que ninguém conta isso pra gente quando fazemos as malas para mudar para outro país, certo?

Mas deixa eu te explicar estas 4 realidades de uma maneira mais clara.

Assimilação

Quando os indivíduos não têm interesse em manter sua herança cultural e buscam interações com outras culturas, ocorre a assimilação.

Separação

Quando o imigrante vê valor em manter sua cultura original e deseja evitar interações culturais com o outro, acontece a separação.

Integração

Já quando tem um interesse do imigrante em ambos, ou seja, manter a cultura original e se engajar em interações culturais diárias com outros grupos, acontece a integração. Nesta opção, o imigrante busca tornar-se parte integrante da sociedade que escolheu.

Ainda assim, é fundamental entender que não basta só o nosso desejo como imigrante para que a integração aconteça. Quando a sociedade que nos recebe força algum tipo de relação ou ainda restringe as escolhas dos imigrantes, o termo integração já não pode mais ser utilizado em seu formato absoluto.

Por mais que a estratégia da integração pareça a mais justa e correta, ela somente acontece em sociedades que são explicitamente multiculturais e onde algumas pre-condições psicológicas já foram estabelecidas.

Estas pré-condições psicológicas aí são a aceitação da diversidade cultural, baixos níveis de preconceito e discriminação, atitudes positivas em relação a grupos etnoculturais e um sentido de conexão ou identificação com a sociedade por parte de todos os indíviduos e grupos.

Ou seja, se o país para onde você está indo ou ainda o país onde você se encontra atualmente não é uma sociedade multicultural e não atende estas condições psicológicas, você pode fazer o esforço que for e a integração jamais irá acontecer em sua plenitude.

Entendeu de onde pode estar vindo um certo mau estar por ai?

Marginalização

E por último, quando há poucas ou raras possiblidades de interesse na manutenção cultural do imigrante (forçado por perdas culturais) e pouco interesse em ter relações com outras pessoas (normalmente ocasionadas por exclusão e discriminação) ocorre a marginalização.

A verdade é que quando a gente decide imigrar, não pensamos ou ainda não sabemos profundamente como uma sociedade se manifesta. E o pior, são necessários anos vivendo em um mesmo lugar para compreender as camadas profundas que moldam uma sociedade psicologicamente.

Por isso, muitas vezes o imigrante pode acreditar sim estar cada vez mais integrado a uma sociedade quando, na verdade, há um limite muitas vezes inconsciente de integração já imposto por quem o recebe. E não importa o tamanho do esforço que você fizer, este limite é difícil ou muitas vezes impossível de ser alterado.

E ai, nesses casos, somente com conhecimento e autoconhecimento a sua imigração pode dar certo independente da sociedade que te cerca.

Um outro conceito importante do estudo da psicologia da imigração é o conceito de identidade cultural.

O que é a identidade cultural?

A identidade cultural se refere a um set complexo de crenças e atitudes que a gente tem sobre nós mesmos em relação ao nosso grupo cultural. Normalmente, este conceito vem à tona justamente quando a gente está em contato com outra cultura.

Quer ver um exemplo? Eu nunca comia coxinha quando morava no Brasil. Mas basta uma coxinha aparecer na minha frente em outro país, que o cheirinho de fritura já ativa minha identidade cultural e eu começo a salivar. 

Mudanças comportamentais

E por último, existe também o conceito de mudanças comportamentais. Este conceito se  refere a mudanças psicológicas que acontecem a partir do contato cultural.

Em outras palavras, é quando o envolvimento com uma outra cultura provoca um “transbordamento cultural” e um “aprendizado cultural”. Isto pode provocar mudanças na nossa maneira de

– nos vestir,

– de comer,

– de nos cumprimentar

– ou ainda mudanças sobre nossos valores.

Por mais que a imigração provoque muitas mudanças comportamentais, sobre as quais a gente vai falar em outros conteudos por aqui, uma das mudanças mais importantes está conectada ao conhecimento da língua ou idioma.

E esse assunto também merece um conteúdo exclusivo para a gente entender psicologicamente como esta mudança de comportamento interfere na vida do imigrante.

Como imigrante e analista junguiana estudar e compartilhar conhecimento sobre a psicologia da imigração oferece pra gente uma compreensão mais profunda das complexas experiências psicológicas dos imigrantes, ajudando a gente a ter um melhor entendimento e adaptação em um novo país.


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AQUI você também pode saber mais sobre meu trabalho.

E assim nossa imigração pode dar certo.