The Glassco Translation Residency: Day #8

The Glassco Translation Residency will be always known as the place I really understood what does “translation” mean. And I’m not only talking about (but not excluding) the way we change a text, a piece, a book, a film to another language, but specially about how translation is part of our lives.

 

Somebody told me here (maybe Bobby?) that we are always translating. We are always trying to “give meaning” to something, based on our own background and knowledge. Unfortunately, we are not always right, but it is ok.

 

And I need to say that because I’ve had some moments when I really wanted to make an SOS for a life-dictionary… Isn’t it awfull when you feel appart? When you believe you are misunderstanding things? When you think you are being missunderstood? When you have the impression you’ve exagerated? Of even worst, when you are making part of a bad translation of yourself?

 

Yes… If you are a immigrant (even if you forguet it often) somentimes you will be mistranslated. And it is ok. We are humans and we only need some days to really understand things the way they really are. 8 days at Tadoussac… and I’ll miss it.

The Glassco Translation Residency: Day #7

Há uma semana estou aqui. Sete dias convivendo com pessoas que não conhecia. Em uma pequena cidade que jamais visitei. Em um quarto que nunca dormi.

Cheguei aqui para traduzir um texto do francês para o português e irei sair com uma bagagem imensa que jamais imaginei. Estou compartilhando o mesmo teto de uma casa com uma história, apreciando a tranquilidade de baleias, belugas e focas que não estão nem aí para nossa presença, entendendo o que é de verdade o Canadá, o Québec, o francófono, o anglófono e tantas outras nuâncias sob diferentes pontos de vista que nem eu mesma sei ao certo o que pensar sem uma grande reflexão antes de falar.

E sim, nós ficamos horas em silêncio trabalhando, ao mesmo tempo em que compartilhamos conhecimento e taças de vinho em nosso 5 à 7 e falamos sobre os assuntos mais diversos e loucos durante nosso jantar. Sim, nós passeamos juntos no início da noite para garantir o ócio-nosso-de-cada-dia e voltamos para casa com a sensação de que realmente contribuímos, através do nosso trabalho, para um futuro melhor. Nem sempre é tão óbvio assim… mas na maior parte das vezes é uma consciência real.

Sim, faltam três dias para partir e tenho certeza de que vou sentir saudades dessa casa. Da escada que range, do cuco, do cheiro de terra molhada, dos amigos que fiz por aqui. Em uma conversa, Maryse disse que vou voltar. Que esta seja uma bela profecia. Afinal, como disse a senhora da lojinha de chocolates: “coisas mágicas acontecem em Tadoussac”.

The Glassco Translation Residency: Day #5

I feel guilty.

 

I feel guilty when I don’t start working early in the morning. Guilty when I notice that I’ve lost a lot of time with bullshit. Guilty when the day wasn’t as productive as I expected. Guilty for idleness, for contemplation, for openning space.

 

So, today I went for a long walk.

 

I saw trees, the river, the fjord, the rocks, the birds, the boat, the lighthouse. And instead of appreciating all of that, I found out that guilty had gone with me for a long walk.

 

So, guilty made me come back.

 

And even after a hot shower, where I’ve tried to take her out as dirty on our skin, she is there… Using my own words to keep me guilty even of writing.

 

But there is something that guilty doesn’t know.

 

When you write it down, guilty disapears at the moment you put the end point.

The Glassco Translation Residency: Day #4

Florence mora em Montreal, mas passa o verão em Tadoussac. Em sua casa, de frente para o Rio St. Laurent, ela separou um pequeno cômodo para seus chocolates. Uma porta de entrada com uma baleia branca diz “ouvert”. Você desce três degraus e sente o cheiro do cacau. Ela explica o que é fabricação própria e o que são produtos adquiridos por conta dos turistas. Compro uma barra de chocolate amargo e um pacote de chocolates sortidos. Conversamos. O tempo aqui passa mais devagar. Ela me pergunta se aceito um porto. Eu que não gosto de porto, aceito. E ela volta com o licor em um copinho de chocolate feito por ela mesma. Nos despedimos e volto para a residência de tradução. O tempo aqui passa devagar. Felizmente.

Glassco Translation Residence: Day #3

La nuit tombe à Tadoussac. Après une douche chaude, je descends les escaliers pour mettre le mot de passe WiFi sur mon kindle. Le silence entrecoupé par le bruit de l’horloge « coucou » et le grincement de planches de l’escalier me donne le sentiment que tout le monde dort. Au premier étage, dans tous les coins de la maison, chacun est dans sa propre bulle littéraire, que ce soit dans toutes les langues. Les auteurs et les traducteurs dévorent les lettres du clavier, chacun en son temps. Briony croise mon chemin en disant « doux rêves pour toi ». Et je vois déjà son sourire dans le matin en me demandant, comme tous les matins, « avez-vous bien dormi? ». Je ne sais pas encore s’il est redondant la phrase « avez-vous bien dormi? », ou « doux rêves pour toi » dans un endroit comme celui-ci. Ou suis-je encore redondant de dire que tout cela me semble irréel ici?

Glassco Translation Residence: Day #2

Dia 2.

Acordei em Tadoussac.

Não era um sonho.. apesar de ter tido muitos ao longo da noite.

No caminho entre a sala e a cozinha, me perguntam o que achei da cama.

Tive vontade de utilizar adjetivos em português para dizer como estava feliz, mas não queria parecer uma criança.

Eu me sentia uma criança.

Quando você acorda, por mais poliglota que acredite ser, os adjetivos em outros idiomas ainda dormem em algum lugar da sua cabeça.

À minha frente, uma praia de rio.

Aqui, a palavra “praia” ganha novos sentidos.

E tudo bem.

Fui caminhar na areia.

Molhei os pés.

Percebi que a cada 8 segundos, os ossos começavam a doer.

Precisava tirar os pés da água.

E depois voltar.

Vi focas.

Voltei para o que chamo de “lar”.

Limão com água quente.

Um café forte.

Pão com manteiga. Nem esquentei.

Escolhi a melhor vista da “praia”.

Uma cadeira de balanço, duas almofadas sobre as pernas e meu laptop.

Hora de começar a tradução…

…e de olhar vez ou outra pela janela.

Parece surrealismo, mas, aqui, uma baleia pode cruzar seu caminho enquanto você digita.

Glassco Translation Residence: Day #1

Tadoussac. First day at “Glassco Translation Residence”. It is like if I came from an unrealistic journey since the moment I left Montreal, this morning, in a train, till this very moment where I am in “my” lovely room writing down this text.

This is not a house. It can’t be. This is one of my dreams coming true where we see lots of books (even in the bathroom), a garden, boats from the window, a stair made of wood, a sound of a cuckoo on the wall telling me time goes by, a dinner with wine and writers on every corner of the house. If it is not a dream, please, keep me awake.

Here I am, loving each moment, each corner, each detail… And do you know what? It’s been only 5 hours I arrived here… and I’ll spend ten days!

Sorry if I don’t come back… but I’ve just found my place.

Em movimento…

Nos sentamos dois a dois no trem, frente a frente. Rebeca e Maryse de um lado. Eu e Michael do outro. Depois de breves apresentações, o primeiro assunto foram os livros que cada um trazia para a “residência”. Feliz em estar em companhia do meu kindle. O trem começou a se movimentar. Montreal foi ficando distante pela janela. Até aqui, tudo me parecia um pouco surreal. Ficção, textos de teatro, conselheiros dramatúrgicos, resiliência… E lá estava eu, a caminho de uma residência de tradução com escritores do Québec. Engraçado como criamos imagens de nós mesmos que nem sempre “se encaixam” onde desejamos ou imaginamos. Difícil para mim me ver como eles, apesar de, no fundo, sermos tão iguais. Escritores. Afinal, qual a real diferença entre nós?